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SEGURANÇA
13/11/2007 - 15:03
Erro humano, o vilão dos acidentes
Estudo da IRU mostra que a falha humana responde por mais de 85% dos acidentes europeus envolvendo caminhões. No entanto, 75% deles são causados por outros usuários da rodovia.
Em 85,2% do casos, a falha humana é a principal causa dos acidentes de trânsito europeus envolvendo caminhões. No entanto, entre os acidentes provocados por falha humana, apenas 25% foram causados pelo motorista do caminhão, ficando os 75% restantes por conta de falhas de outros usuários da rodovia (pedestre ou outro motorista).
Esta é a principal conclusão do “European Truck Accident Causation Study (ETAC)” promovido pela International Road Transport Union (IRU) em conjunto com a Comissão Européia (EC). Buscando identificar as principais causas dos acidentes com veículos de transporte de cargas na Europa, o estudo investigou em profundidade nada menos que 624 acidentes envolvendo caminhões.
Outros fatores, como falhas técnicas (5,3%), infra-estrutura (5,1%) e condições do tempo (4,4%) desempenham papel secundário como causa principal dos acidentes europeus com caminhões.
Apenas 7,4% dos acidentes não envolveram outro usuário da rodovia (veículo ou pedestre). Os 95,6% restantes ocorreram tipicamente nas operações de cruzamento de interseções (27,0%), congestionamentos (20,6%), mudanças de faixas (19,5%) e em manobras de acesso (11,3%).
A análise sobre os erros humanos quando o caminhão provocou o acidente mostrou que falhas na observação das regras de interseções, velocidade inadequada e manobra imprópria nas mudanças de fixas foram as causas principais dos eventos.
No entanto, os percentuais de participação variam bastante com o tipo do acidente.
Cruzamentos
Em mais de 30% dos acidentes em cruzamentos, os dois fatores que mais contribuem para o acidente são a falha em observação as regras do cruzamento e velocidade inadequada para a situação.
No caso de acidentes provocados por caminhões nas interseções (cruzamentos), os percentuais foram os seguintes: falhas na observação das regras de interseções (20,1%), velocidade inadequada (13%), manobra impróprias nas conversões (7,8%), restrições de visibilidade (4,5%). Falta de experiência do motorista (3,9%), problemas técnicos (3,3%), falta de conhecimento do desempenho do veículo (3,3%), desatenção (2,6%), hábitos e desconhecimento do local (1,9%) e ausência de informação ou péssimas informações transmitidas a outros veículos (1,1%) .
No caso de acidentes provocados por outros usuários nas interseções (cruzamentos), os percentuais foram os seguintes: falhas na observação das regras de interseções (28,2%), velocidade inadequada (10,9%), falta de experiência do motorista (9,2%), manobra impróprias nas conversões (4,6%), distância de segurança insuficiente (4,5%), idade (3,6%), drogas e álcool (3,6%), perda de aderência (1,8%), desatenção (1,8%) e restrição de visibilidade (1,8%).
Congestionamentos
Nos congestionamentos (filas), um em cada dois acidentes ocorre devido à inadequação da velocidade, distância de segurança insuficiente e desatenção.
Nos congestionamentos, os acidente provocados pelo caminhão tiveram as seguintes causas: velocidade inadequada (22,1%), distância de segurança insuficiente (16,2%), desatenção (12,8%), falta de experiência (4,6%), perda de aderência (3,5%),
medidas de segurança insuficientes no caso de parada ou quebra do veículo (3,5%), falta de conhecimento do desempenho do veículo (2,3%), fadiga, dificuldade de se manter acordado (2,3%), falha de freio (1,2%) e problemas técnicos (1,2%).
Nos congestionamentos, os acidente provocados por outros usuários da via tiveram as seguintes causas: velocidade inadequada (28,2,%), distância de segurança insuficiente (12,0%), desatenção (11,0%), perda de aderência (6,8%), fadiga/dificuldade de se manter acordado (5,4%), mau estar (4,2%), falta de experiência (4,2%), visibilidade restrita (2,7%), engano ao acessar saída (1,4%) e drogas álcool (1,4%) .
Mudança de faixa
Independente da causa do acidente, mais de 50% são devidos à inadequação da velocidade, manobras mal feitas ou impróprias, perda de aderência e falta de experiência do condutor.
Nas mudanças de faixas, os acidente provocados pelo caminhão tiveram as seguintes causas: velocidade inadequada (19,7%), perda de aderência (13,7%), falha técnica(9,1%), cruzar faixa contínua em curvas (7,6%), manobra inadequada nas curvas (7,6%), falta de experiência (7,6%), desatenção (3,0%), visibilidade restrita (3,0%), falha de freios (1,5%) e fadiga/dificuldade de se manter acordado (1,5%).
Nas mudanças de faixas, os acidente provocados por outros usuários tiveram as seguintes causas: velocidade inadequada (14,4%), cruzar faixa contínua em curvas (9,4%), perda de aderência (8,5%), falta de experiência (7,6%), manobra inadequada nas curvas (6,8%), problemas técnicos (5,1%), fadiga/dificuldade de se manter acordado (4,2%), restrição de visibilidade (4,2%), desatenção (2,5%) e drogas e álcool (2,5%).
Manobras evasivas (de saída da via)
Quando o caminhão provoca o acidente, 45% são causados principalmente por: manobras inadequadas (15,7%), fadiga (8,8%), velocidade inadequada (6,7%) e falta de experiência do motorista (6,7%) e invasão da faixa contínua (6,7%). Outras causas são:distância de segurança insuficiente (4,4%), medidas de segurança insuficiente no caso de parada do veículo (4,4%), problemas técnicos (4,4%), droga e álcool (4,4%) e erro no uso dos pedais (2,2%).
Quando o acidente é provocado por outro veículo, mais de 50% dos acidentes são causados por manobra inadequada (30,0%) e velocidade inadequada (22,5%). Outras causas são: falta de experiência do motorista (10,0%), cruzamento de faixa contínua (6,2%), medidas insuficientes de segurança no caso de parada do veículo (6,2%), perda de aderência (2,4%), falta de conhecimento sobre o desempenho do veículo (2,4%), falhas de freio (1,3%), erro no uso dos pedais (1,3%) e fadiga (1,3%).
Acidentes isolados
No caso de acidentes que não envolvem outros usuários, em 50% dos casos, a causa é velocidade inadequada (20,3%), fadiga/sono (18,6%) e perda de aderência (11,9%). Outras causas são: manobra não apropriada (8,5%), desatenção (8,4%), mau estar (5,1%), problemas técnicos (5,4%), carga (3,4%), droga e álcool (3,4%) e invasão de faixa contínua (3,4%).
Carga
O estudo mostra que a carga é a principal causa dos acidentes em apenas 1,4% dos casos (nove acidentes em 624). Em três dos nove acidentes, o veículo capotou. O estudo mostra, no entanto, que a carga contribui para a severidade do acidente.
Fadiga
Embora seja comum acreditar que a fadiga é a principal causa dos acidentes, o ETAC demonstrou que isto só ocorreu em 6% dos casos. No entanto, 37% destes acidentes foram fatais. Cerca de 68% destes acidentes envolveram um caminhão e outro veículo, 29% envolveram pedestres e apenas 3% não envolveram outros
usuários.
Os horários críticos foram das 2h às 3 h, provavelmente porque trata-se do horário em que o biorritmo está no seu ponto mais baixo; e das 15 às 16 h, quando o motorista está perto de encerrar a sua jornada. Cerca de 90% ocorreram nas rodovias, contra apenas 10% nas cidades.
Condições das estradas
As rodovias foram a principal causa de apenas 5% dos acidentes. Em 8% dos acidentes, havia obras na rodovia em 1/3 deles as obras foram a causa principal do acidente. Cerca de 1/3 dos acidentes causados pela rodovia ocorreu em cruzamentos.
Pontos cegos
Pontos cegos são áreas ao redor do caminhão que não são visíveis pelos outros motoristas, por meio do pára-brisa, janelas ou espelhos.
Entre os acidentes, 30 ocorreram em cruzamentos e envolveram pelo menos usuário vulnerável. Os pontos cegos foram a principal causa de 14 destes acidentes, dos quais 2/3 foram fatais.Em 75% dos casos, o motorista estava virando à esquerda ou seguindo em frente.
Conclusões
Uma alentada lista de recomendações fecha o estudo da IRU. Em relação à velocidade inadequada, sempre presente entre as causas de todos os tipos de acidentes, o ETAC recomenda o uso do “cruize control”, sinalização e fiscalização mais efetivas e adaptação de velocidade pelos motoristas às condições de tráfego.
Para combater os acidentes que ocorrem nos cruzamentos, o estudo sugere o uso de espelhos capazes de eliminar os pontos cegos, comunicação veículo a veículo, sistema de ultra-som nas zonas críticas de colisão, aumento da visibilidade da sinalização vertical, revisão dos programas das escolas de condutores, treinamento de motoristas, aumento da fiscalização, melhor planejamento das viagens e respeito às normas de tráfego.
Em relação às mudanças de faixa, segure-se, entre outras providências, o uso de sistemas de tração e de estabilidade, aumento do atrito das vias e treinamento de motoristas. O estudo completo está disponível no site www.iru.org. No Brasil, os resultados seriam diferentes.
A conclusão de que 85,2% dos acidentes europeus envolvendo caminhões tiveram como causa principal a falha humana não chega a surpreender. Embora um acidente nunca tenha uma única causa, a preponderância da falha humana constitui quase que um paradigma da segurança de trânsito.
A novidade está no fato de que 75% dos acidentes onde houve falha humana não foram provocados pelo motorista do caminhão, mas sim por outros usuários da rodovia (pedestre ou outro motorista). O resultado parece indicar que o motorista de caminhão europeu está mais bem preparado para evitar acidentes do que os demais motoristas e os pedestres.
Outra conclusão importante é a de que falhas técnicas (causa principal de 5,3% dos acidentes), condições das rodovias (5,1%), fadiga (6%) e excesso de carga (1,4%) têm papel secundário como causa principal de acidentes.
Tratando-se da Europa, isto também não chega surpreender, porque a frota é nova, as condições das rodovias são boas e existe rígido controle sobre tempo de direção e sobre o excesso de cargas.
No Brasil, certamente, estes fatores têm peso bem maior. Além disso, o motorista profissional é menos preparado do que o europeu. De qualquer maneira, os dados demonstram que, para alcançar o padrão europeu, o Brasil ainda precisa investir muito em renovação de frota, rodovias, pesagem de veículos, controle de tempo de direção e treinamento de motorista.
O papel preponderante do controle de velocidade, sinalização de cruzamentos e mudanças arriscadas de faixas de rolamento como causas de acidentes é uma conclusão que deveria nortear as medidas para reduzir acidentes.
(Neuto Gonçalves dos Reis, assessor técnico da NTC&Logística).
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